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Fase Oriental

Estado de Espírito

"O título tem de provocativo e instigante o que os abismos em forma de olhar de crianças, nos quadros, têm de comovente. Quebrantando as fronteiras artificiais de nosso dilacerado mundo de "adultos" que mais parecem crianças raivosas que esqueceram do que há de leve, passageiro e lúdico no viver, a artista nos convida a um mergulho de volta, ou para frente, ao encontro da criança brincante, ela própria anárquica" LIUDVIK, Caio. (Crítica completa abaixo)

Crítica por Caio Liudvik 

"A Anarquia vem de um desejo inerente à espécie... Só é aberração para quem se recusa a ver que, por vezes, a única saída é a realização de um sonho"
André Nataf

A Anarquia, antes e mais que projeto político, um estilo existencial, calcado, quando vivido sinceramente, numa generosidade, numa confiança no ser humano, proporcionais à indignação combativa contras as formas e deformações que afastam o ser humano de sua liberdade primitiva. Esses traços anímicos são abundantes na personalidade e estética fortíssimas de Pérola Maia Bonfanti. (Ad)mirem-se pelo exemplo desta série "Estado de Espírito".
O título tem de provocativo e instigante o que os abismos em forma de olhar de crianças, nos quadros, têm de comovente. Quebrantando as fronteiras artificiais de nosso dilacerado mundo de "adultos" que mais parecem crianças raivosas que esqueceram do que há de leve, passageiro e lúdico no viver, a artista nos convida a um mergulho de volta, ou para frente, ao encontro da criança brincante, ela própria anárquica, a seu modo. Pérola afirma com sabedoria:

“Tento fazer uma relação entre o "brincar" e a anarquia”

“Porque a anarquia não é a falta de regra, mas uma concepção de regra fluida, próxima da brincadeira infantil”

“Algo que regra é desregra ao mesmo tempo”
“Que dá uma forma, mas preserva a liberdade da mutação”

“Pois nada é estático”

“O jogo (infantil) não é estático”

“E ele se molda ao mesmo tempo que a criança constrói seu universo”

Nossa época é de acirradas ambivalências entre os ventos de transformação e as amarras do retrocesso. Velhas estruturas hierárquicas morais, políticas, sexuais, são questionadas. Diagnósticos peremptórios sobre o narcisismo, o individualismo e a apatia das novas gerações ficam defasados, ante o espetáculo de novas dinâmicas comunicativas que nascem, em grande parte, nas chamadas "redes sociais" mas ali não se confinam: vão às ruas, exigem, são e fazem acontecer a mudança. Por outro lado, o medo, o ressentimento, a estranheza fazem as pessoas se fecharem em intolerância, anseios de restauração da "ordem", em novas e velhas lógicas de poder. Enquanto isso, as crianças de Pérola, pérolas elas próprias, nos miram. Joias preciosas de delicadeza, de um valor que não se deixa cooptar pelo voraz radar do capital. 
Em seu aceno ao distante Oriente e ao Brasil originário, Pérola só aparentemente se afasta de nossas tensões urbanas mais imediatas, que de resto explora tão bem em seus "jogos" estéticos já desenvolvidos em algumas das principais cidades do mundo como Viena e Nova Iorque.
Algo em sua proposta nos faz lembrar "Tristes Trópicos", o clássico livro de viagens em que Claude Lévi-Strauss relata a gestação de sua antropologia estrutural junto às tribos nativas brasileiras; as páginas finais, porém, fazem um elogio ao budismo como uma possível inspiração para nos desvencilharmos das antinomias ideológicas da modernidade, assim levando adiante a generosidade ética da crítica de esquerda ao capitalismo, mas sem seus desvios corruptos ou totalitários, isto é, regressões à lógica do poder, esta mesma que leva às mãos manchadas de sangue, num dos quadros da série de Pérola, ou à contradição verbalizada em outro deles: "até em nome de Buda já se fez guerra".
Não são, a bela e promissora artista carioca parece nos dizer, "ismos" quaisquer que nos salvarão, inclusive um "anarquismo" clichê. É a conversão do olhar. O "eye contact" com essas janelas da alma que nos espreitam nas crianças de todo o mundo, inclusive na que brinca, chora, ri e pede para viver dentro de cada um de nós. 
Caio Liudvik, 
Cientista social, jornalista e pós-doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo.
S. Paulo, abril de 2016